Federação Russa: O Império
"O Presidente Russo, Vladimir Putin, manteve firmemente o objetivo de desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia. Estas tarefas difíceis não estão a ser alcançadas de uma só vez. E não serão resolvidas apenas nos campos de batalha. O objetivo mais importante é mudar a mentalidade de alguns ucranianos de hoje, que é sanguinário e cheio de mitos. Este será o objetivo das gerações de ucranianos, que terão a oportunidade de finalmente construir uma Eurásia aberta - de Lisboa a Vladivostok.
Dmitry Medvedev
Ex Primeiro Ministro, Ex Presidente da Federação Russa e atual Presidente do Conselho de Segurança da Rússia
Por: Firminiano Maia
Sinopse
Este artigo descreve a Rússia moderna sob a liderança de Vladimir Putin como uma entidade com características imperiais, argumentando que o país cumpre a maioria dos critérios que constituem um império. A análise explora os elementos que consolidam o poder da Rússia, como uma liderança forte e centralizada, uma economia que sustenta o esforço militar, através duma infraestrutura robusta, e duma propaganda eficaz para garantir a legitimidade interna.
O texto detalha também a expansão territorial russa, exemplificada pela invasão da Ucrânia e o controlo sobre outras regiões. Com a ideologia euroasiática, Moscovo promove a unificação dos povos eslavos e uma postura antidemocrática e antiocidental, usando alianças e influência em regiões como o Médio Oriente e África para expandir o seu alcance.
O autor defende que a Rússia moderna age como um império continental, utilizando a ideologia e a propaganda para reforçar seu domínio e influenciar territórios, em grande parte através de uma combinação de cooptação de elites locais e repressão de dissidências.
Muito interessante para quem estando saturado das retóricas balofas, quer entender a Rússia de Putin e porque se envolveu na guerra sanguinária da Ucrânia.
A acusação imperialismo é, não sem razão, arremessada contra os países europeus, alguns dos quais tiveram realmente impérios multicontinentais, e particularmente contra os EUA que, paradoxalmente, mesmo em territórios que não dispõe de representação política própria, como Porto Rico, os seus habitantes são cidadãos americanos. Hoje, os países europeus que conduziram políticas imperialistas, já não têm impérios e os próprios EUA, não possuem colónias. Claro que, os países têm interesses próprios e em alguns deles os seus interesses manifestam-se a nível global. Decorre daí que os países democráticos tendem a adotar procedimentos adequados às suas possibilidades e à gravidade das ameaças pendente sobre esses interesses. Para os defender ou afirmar, alguns exercem influência diplomática ou cultural outros juntam a esta, a influência económica e outros ainda, juntam às anteriores a pressão militar. Sem o argumento da existência de colónias a acusação mudou de tom. Os países democráticos são agora apodados de neocolonialistas. Nada disto se pretende negar.
Pretende-se, outrossim, sem branquear as responsabilidades ocidentais, comparar a realidade da atual atuação dos regimes democráticos liberais do ocidente com a alternativa russa. Ora, o campeão do anticolonialismo, o justiceiro internacional de serviço contra a opressão e o colonialismo, o dedo em riste sempre apontado ao imperialismo que a Federação Russa personificava, é ela mesmo um poder imperial, colonial e neocolonial, dependendo a classificação da geografia em que exerce o seu poder e influência. Essa suposta boa imagem de “amigo dos oprimidos” advém do apoio dado, não pela Federação Russa, mas pela URSS, aos movimentos de libertação nacional nas colónias europeias, em muitos casos sujeito a pesadas condições de hipoteca futura dos recursos naturais dos beneficiários. Mas, na realidade a atual Federação Russa, não faz nada de muito diferente do que fazia a URSS: Apoia, nomeadamente com armas, os inimigos dos seus inimigos com o objetivo de os enfraquecer.
A ajuda soviética e muitos dos investimentos estatais ou de oligarcas russos, revestem de aspetos tão escabrosos e penalizadores para os “ajudados” que não lembrariam ao mais retinto imperialista. Não se trata de desvalorizar em nada as responsabilidades das potências coloniais e das violências e injustiças cometidas. Trata-se apenas de determinar se a atual Federação Russa é ou não uma potência imperial, se é ou não um poder opressor, se exerce ou não um poder colonial igual ou pior do que os outros. E finalmente se a sua reputação de “amigo da liberdade dos povos” é merecida. Mas quanto a isso os povos Ucranianos, Georgiano, Checheno, Afegão e outros, terão uma palavra a dizer. A seguir, abordaremos a política imperial da Federação Russa sob o domínio de Vladimir Putin, na qual a ideologia euroasiática desempenha um papel fulcral.
Sem deixar de reconhecer que a construção de um império é um fenómeno complexo e multifacetado que depende de uma combinação de fatores políticos, económicos, culturais e militares, tentaremos responder à pergunta enumerando um conjunto de elementos que são geralmente associados na construção de um Império em que exerce o seu poder e influência.
Aceitemos, como base de trabalho, que a viabilidade de qualquer solução imperial necessita da verificação de, pelo menos 10 condições:
Os principais blocos constitutivos
1 - Possuir uma Liderança forte e centralizadas
2 - Gerir com eficácia os recursos disponíveis e praticar boa económica
3 - Dispor de boas infraestruturas e sistema de comunicações eficientes
4 - Praticar uma administração eficiente e serviços jurídicos generalizados
5 - Refletir uma imagem de legitimidade e reforçada pela propaganda do regime
A expansão e consolidação
6 - Expandir-se militarmente pela conquista de territórios
7 - Desenvolver a capacidade de assimilação e cooptação das elites locais
8 - Ser capaz de se adaptar às novas circunstâncias e evoluir acompanhando a mudança
9 - Ser capaz de gerir dissidências e revoltas
10- Promover a integração cultural e ideológica
Para poder responder à pergunta inicialmente formulada: “Será a Federação Russa um império?”, procuraremos, em dois artigos. contribuir para a compreensão do fenómeno imperial russo e, aduzir factos e argumentos que sustentem a verificação de cada uma das 10 condições formuladas.
A estes seguir-se-á a publicação de outro artigo sobre a ideologia do regime e a filosofia que lhe subjaz. Optamos por abordar o tema em artigo próprio, em separado, porque é, a nosso ver, a chave para entender a atuação da Rússia de Putin. A ideologia explica a atuação do regime, os objetivos, o seu impulso expansionista e a razão porque a isso se sente compelida. Ao mesmo tempo lança luz sobre ações e atos de Putin e entourage, que parecendo por vezes desconexos ou aleatórios só por esta via se tornam inteligíveis.
Os principais blocos constitutivos
1 - Liderança Forte e Centralizada
É inegável que a Rússia, à exceção de um breve período entre Gorbachev e Putin, no qual existiu uma tentativa incipiente de democratização, o país sempre dispôs e lideranças fortes e centralizadas, com o regime czarista, com o período soviético e, mais recentemente com Vladimir Putin que consolidou a sua liderança, por obra do que já tivemos oportunidade de demonstrar no artigo “Tirania e ambição – trinta anos de Vladimir Putin“, sim, a Rússia dispõe de uma liderança forte e centralizada
2 - Gestão eficiente dos recursos e economia
Um império precisa de uma base económica forte para sustentar as suas campanhas militares e expandir a sua influência. O controlo de rotas comerciais, a exploração de recursos naturais. A Federação dispõe de vastos recursos naturais minerais, petróleo e gás natural que gere com eficácia para consumo interno e exportação, utilizando-os frequentemente como arma política.
A entrega da economia a oligarcas “amigos”, fiéis e solidários com o regime (ou presos, assassinados ou afastados), constitui uma base de apoio sólida. Esses homens, bem aceites no ocidente, sempre ávido de dinheiro, mandam os seus filhos estudar para Oxford ou para o MIT tornaram-se clientes preferenciais de instituições financeiras, gozando em alguns casos de benefícios específicos no ocidente. Conhecem e utilizam em proveito próprio e da Mãe Rússia tudo o que aprenderam, muito particularmente sobre o sistema financeiro.
Apesar das sucessivas ondas de sanções, a Federação Russa continua a fazer negócios com o ocidente e a conseguir minorar os efeitos das sanções. Desde o início da guerra da Ucrânia a economia russa transformou-se numa “economia de guerra”. Isso implica a reconversão de indústrias para a produção de produtos relacionados coma guerra (armamento inclusivamente), aumento de horas de trabalho ou laboração continua em determinados sectores da economia. A Rússia prepara a sua economia para a eventualidade de uma guerra, dirão uns. Outros mais pessimista diriam que a prepara a guerra que planeou. Uma coisa é certa essas alterações são estruturais e, uma vez efetuadas, influenciam toda a economia, não sendo depois fáceis de reverter. O significado deste esforço é que estamos perante a preparação da economia para um longo período de conflitos.
O sistema de alianças nomeadamente com a República Popular da China a Coreia do Norte e a aquiescência dos BRICS, permito à Rússia, resistir às sanções e até contra-atacar através dos BRICS. Tem-se ligado pouco à tentativa dos BRICS, com a Rússia à cabeça, de substituir o dólar americano por moedas locais, mas esse plano já em curso é de uma relevância superativa. Mas, a obter êxito, tal plano representará um golpe mais mortal no poderio americano do que a perda de uma guerra. A s consequências serão o enfraquecimento apreciável do seu poderio económico e militar e impossibilidade de verdadeiramente competir com a China e o abandono, pelo menos parcial, de algumas das suas posições mundo dando origem a vazios de poder e/ou influência, que serão rapidamente preenchidos por outros, Rússia, China, Irão estarão na primeira linha para os ocupar.
A Economia Russa não é uma Grande economia! O seu PIB está ao nível do PIB do Brasil e é menor que o da França ou do Reino Unido. Porém é quem mais beneficiará da situação descrita no parágrafo anterior. Sucintamente, afirmaríamos que a economia é suficientemente forte para sustentar a aventura imperial do Kremlin durante um tempo limitado, mas não é despiciendo o facto de as conquistas territoriais poderem aportar novos e mais valiosos recursos. A intensificação de velhas alianças e a celebração de novas, nomeadamente com a China e o aproveitamento da dinâmica dos BRICS estão a compensar os efeitos da rutura com o ocidente e a resiliência da economia russa num cenário adverso parece ter aumentado. Porém, o reverso da moeda será a crescente dependência da China.
Mas, de uma forma geral, a economia russa respondeu melhor à guerra e pressão das sanções do que seria de esperava.
3 - Infraestruturas e Comunicação
Para controlar vastos territórios, um império precisa de redes de infraestruturas que facilitem a comunicação e o transporte de recursos e tropas. O Estado russo conta com redes viárias ferroviárias marítima e aéreas suficientes, embora sem a qualidade das congéneres ocidentais. Não nos esquecemos dos acessos da URSS aos países europeus satélites, as quais se revelaram muito eficientes quando se tratou de os invadir como no caso Checo ou Búlgaro. De suma importância, até porque é utilizada intensivamente como arma de propaganda, censura e arma de guerra, é a internet. A rede de satélites militares civis e de investigação asseguram uma cobertura planetária e tem-se mostrado de valor inestimável.
Conclui-se que a Federação Russa dispões de um sistema e infraestruturas de comunicação eficientes e capazes
4 - Administração Eficiente e Sistemas Jurídicos
Um sistema administrativo robusto, com uma burocracia eficaz, permite a gestão de grandes territórios de forma eficiente. Para além disso está totalmente controlado e pode ser exportado para qualquer parte do mundo. Burocratas não faltam, a menos que comecem a ser enviados para a guerra.
A Federação Russa dispõe de uma administração e de um sistema jurídico consolidado e formatado de tal forma que, não sendo autónomo é mais um braço obediente do poder executivo.
5 - Legitimidade e Propaganda
A legitimidade do poder imperial é vital para a sua continuidade. Muitos impérios promoveram narrativas que justificavam a sua expansão e a sua superioridade cultural ou divina. Neste caso a ideologia Euro Asianista fornece caução suficiente para legitimar o regime e a igreja ortodoxa assegura a sua conformidade, senão proteção do divino. A propaganda do regime é muito eficaz. A comprova-lo estão as taxas de aprovação de Putin na Rússia que se aproximam dos 82%. A eliminação da oposição, o domínio dos meios de comunicação, as alterações legislativas impedem o Povo Russo de aceder a outras informações em contraponto à fornecida pela máquina de propaganda do Kremlin que atua a todos os níveis sem concorrência nem restrições, nomeadamente na imprensa escrita, nas televisões nas artes e no mundo digital.
Na internet é curioso o fenómeno dos Bloguistas pro-Kremlin, muito seguidos e geralmente mais papistas que o papa. Estes bloguistas, muitos nazis da cabeça aos pés, são parte importante da propaganda imperialista e racista do regime, proclamando a inferioridade de outros povos face ao olímpico povo russo, e inflamando a agressividade das massas face aos adversários Em suma: Mestres da propaganda em todos os níveis em que ela pode ser exercida.
A expansão e consolidação
6. Expansão Militar e Conquista Territorial
Nas últimas décadas, no nosso país e noutros europeus, devido à história colonial europeia e a algum sentimento de culpa que ela acarreta para os europeus, aceita-se essa realidade e com ela a eliminação de qualquer desejo de expansão territorial.
Porém, não se acusa a Rússia de Imperialismo. Não se associar a ideia de Império à da Rússia dado o conceito estar mais associado à posse ou domínio de territórios ultramarinos e menos à posse ou domínio de territórios no continente. Porém, impérios como o maior de todos, o império Mongol, foi um império continental. O mesmo acontece com a Rússia. E aqui estamos a ser benevolentes por não incluir, por exemplo, alguns países africanos cuja relação de dependência com Moscovo é claramente neocolonial.
A atual Federação Russa inclui Países historicamente subjugados pela via militar. Nações cultural, etnicamente e religiosamente distintas da Rússia. Exatamente 22 Repúblicas às quais foi concedido algum grau de autonomia afim de “preservar a sua identidade cultural”. Tartaristão de maioria tratara de religião Islâmica, Chechénia de religião islâmica, Buriácia de religião Budista e xamanista, a Iacútia do povo Lacuto e religião xamanista e Basquiristão de religião Islâmica. A estas ainda se pode acrescentar outras repúblicas de tradição turcomana e mongólica bem como cossaca. Estas são algumas das nações étnica e culturalmente distintas da Rússia. à qual foram unidas por circunstâncias históricas diferentes. O exemplo Checheno exemplifica bem o que, acontece aos que ousam manifestar a vontade de se “desunir” da Federação.
A Federação Russa é o atual Império Russo, mas, existem ainda outros países, estes independentes, que são considerados como “naturalmente” fazendo parte esfera de Influência russa por diversos motivos, ou porque a sua posse ou controle são considerados estratégicos, ou porque são de população eslava ou maioritariamente eslava, ou ainda porque neles residem minorias étnicas de origem russa. Ou ainda para os afastar da influência dos rivais estratégicos Incluem-se no número de países com minorias russas importantes a Estónia, a Letónia, a Lituânia, o Cazaquistão, Moldávia, Bielorrússia, Geórgia, Quirguistão e obviamente a Ucrânia, particularmente no do Donbass.
Acrescem os países “irmãos” de população eslava. Os países eslavos orientais: Como a inevitável Ucrânia e a Bielorrússia (Independente “de jure”, mas um protetorado de facto).
Os países eslavos ocidentais: Polónia, República Checa, Estónia, Letónia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Servia, Montenegro, Macedónia do Norte e Bulgária
O apetite territorial do Império Russo estende-se inicial e compreensivelmente a todos os países que estiveram sob o jugo da defunta URSS, mas é ainda mais abrangente. Aspira à união sob a égide de Moscovo de todos os países “irmãos” eslavos. Devido às deportações em massa, estalinistas e outras subsequentes já depois da morte do “pai dos povos”, e respetivas recolonizações dos territórios dos deportados por populações russas, muitos países contam com minorias russas nos seus territórios.
Putin, neste particular é um bom seguidor de Hitler que tomou como pretexto para a invasão da então Checoslováquia, a existência de populações alemãs na região dos Sudetas pretensamente oprimida pelos locais. O mesmíssimo pretexto utilizado por Putin para invadir a Ucrânia. Países como a Estónia, Letónia, Lituânia, Cazaquistão, Geórgia e Quirguistão estão nas mesmas circunstâncias, para já não falar a Bielorrússia que apesar de formalmente independente é agora, factualmente, um protetorado russo.
A Expansão militar, cuja expressão atual é a invasão da Crimeia e posteriormente a guerra em curso na Ucrânia é a continuação da expansão territorial há muito iniciada e nenhum dos países atrás mencionado está a salvo, tendo já a Rússia em curso operações de desestabilização nesses países que, não sendo em si mesmas, guerras declaradas, são ações precursoras e de preparação para a guerra.
É ainda de levar a sério a tirada de Medvedev sobre a Eurásia de Lisboa a Vladivostok. Embora tal possa não significar apenas a conquista militar, é expressão evidente da intenção de desarticular a Europa, dividindo-a em “Estados Soberanos”.
Cada um destes estados, por si só não teriam capacidade económica política ou militar para se opor à dominação russa, assumisse ela que a forma que assumisse. Para isso conta com a prestimosa colaboração dos vários populismos europeus ditos nacionalistas, soberanistas e (o termo sempre nos fascinou) eurocéticos! Se os populistas de direita estão conscientes dos objetivos da Rússia outros populismos de esquerda são apenas ingénuos ou, na falta de outras motivações mais nobres, cegos pelo antiamericanismo primário.
Resposta afirmativa: Sim, a Rússia expande-se, planeia e tenta expandir-se ainda mais com recurso à guerra, à chantagem económica, e à compra da cumplicidade de agentes entre o inimigo e à guerra híbrida já em curso como a criação de “linhas de montagem” de notícias falsas e os ataques cibernéticos a instituições fundamentais ao regular funcionamento dos países democráticos, como por exemplo a serviços de saúde.
Eis alguns dos grupos de Hackers com ligações ao Estado Russo:
APT28 (Fancy Bear) - Suspeito de ter vínculos com o GRU (inteligência militar russa). Atividades: Este grupo é famoso por ataques a alvos políticos e militares, incluindo a invasão dos servidores do Comitê Nacional Democrata dos EUA em 2016. Também foi acusado de realizar ataques cibernéticos na Europa, especialmente em países da OTAN.
APT29 (Cozy Bear) - Ligado ao Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR).
Atividades: Conhecido por ataques de espionagem cibernética a governos e organizações internacionais. Em 2020, foi implicado no ataque à cadeia de abastecimento da SolarWinds, que permitiu a infiltração em diversas agências governamentais dos EUA.
Por outro lado, reeditando uma clara estratégia neocolonialista a Rússia tem expandido a sua “ajuda desinteressada” por países da Asiáticos, Africanos, do Médio Oriente, América Latina e até da Europa. Os investimentos estruturais da Rússia refletem a sua estratégia de manter influência global através do controle de recursos energéticos e da infraestrutura crítica desses países.
Sem sombra de dúvida, a expansão por via militar do império russo é uma característica das mais vincadas da Federação Russa.
7. Capacidade de Assimilar e Cooptar Elites Locais
Um dos fatores que contribui para a resiliência de um império é a sua capacidade de cooptar as elites locais dos territórios conquistados, integrando-as na estrutura imperial. Isso garante menos resistência ao poder central e facilita a assimilação dos territórios.
Apos a expulsão dos nazis de França, ao mesmo tempo que se festejavam os heróis da resistência, descobriu-se com surpresa que a colaboração com o ocupante tinha sido enorme. Milhares de Franceses do mundo dos negócios, política, polícias e outros tinham colaborado com o invasor.
É um fenómeno recorrente em situações idênticas e a cooperação decorre de uma multiplicidade de motivos. Desde logo não se deve excluir a possibilidade de muitos dos colaborantes acreditarem no ideário e razões do opressor. Mas a manutenção de privilégios ou acesso a privilégios não obteníveis de outra forma, a manutenção de emprego, o medo da exclusão e da perseguição, entre muitos outros são motivos para colaborar.
As elites dos aparelhos administrativos do estado podem não ter alternativa e decidirem colaborar ou pura e simplesmente obrigadas a isso.
A história da Rússia mostra que dispõe de variadas formas de “motivação” que vão desde o suborno ao assassinato.
Mas a assimilação é tanto mais facilitada, quanto for a perceção dessas elites locais de que a ocupação veio para ficar e não é uma circunstância passageira.
Existe, portanto, a capacidade de assimilar as elites locais, embora nem sempre pela sedução
8. Adaptação e Evolução
Eis o único requisito que o pais de Putin não parece preencher para ser um Império com sucesso. Não me parece haver, na ideologia euro asianista e derivados flexibilidade suficiente para que o regime se adapte a novas circunstâncias. Desde logo é conservador e tradicionalista, proclamação da “especificidade” (leia-se superioridade) da raça eslava não convida à adaptação, mas sim à aculturação e finalmente é uma ditadura férrea e as ditaduras, contrariamente às democracias, tendem a ser mais rígidas. Dadas ao vento dos contratempos históricos as democracias dobram e voltam à forma inicial. As ditaduras quebram e desmoronam-se.
Por outro lado, o principal elemento sedutor da federação russa para com as nações cooptadas ou a cooptar ao Império tem sido a violência e a repressão. E isso cria sempre resistências que são sucessivamente reprimidas até que uma delas se torna tão grande e incontrolável que o a rutura se dá e o inevitável fim se impõe.
9. Gestão das Dissidências e Revoltas
Nenhum império está isento de revoltas. A capacidade de controlar dissidências internas e de lidar com ameaças externas é fundamental. O uso de diplomacia, alianças e, quando necessário, repressão militar, foi a chave para a manutenção da paz e da ordem em muitos impérios.
A história da Rússia neste particular não deixa dúvidas. A dissidência e a revolta são violentamente reprimidas. Não vamos sequer referir episódios do tempo da URSS como o afogamento em sangue da revolta Húngara, ou da “Primavera de Praga”. Remetemos antes o leitor para o nosso artigo “Tirania e Ambição – Trinta anos de Vladimir Putin” onde está disponível o menu completo dos “métodos de gestão” que incluem a tortura, o internamento psiquiátrico, o assassinato em qualquer parte do mundo e claro, o FSB herdeiro do sinistro KGB
10. Integração Cultural e Ideológica
Cultura
A cultura russa é admirável e vastíssima e produziu um grande número de romancistas, poetas, dramaturgos, músicos performers de renome mundial listemos alguns:
Na Literatura: Tolstoi, Dostoièvsky, Tchekhov, Gogol, Gorki, Pasternac ou Soljenitsin.
Na música: Tchaikovsky, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Stravinsky, Prokoviev ou Rachmaninov.
Nas Ciências: Mendeleev (criador da tabela periódica dos elementos), Sakarov- Fisico nuclear e premio Nobel da paz. Kovalevwskaya (matemática), Landau (física quântica) ou Tsiolkovsky (Considerado o pai da cosmonáutica)
A Língua
A língua Russa é língua oficial em toda a Federação Russa e mesmo fora dela, quer pela permanência em diversos países de populações de origem e língua russas, quer por ter sido obrigatória em todos os países que outrora estiveram sob o domínio da URSS. Da Lituânia à Roménia passando pela Polónia, Hungria, ex-Checoslováquia e claro pela Ucrânia e República “Democrática” Alemã.
A língua é um importante veículo de cultura e agente de identificação psicológica e afetiva.
A Religião
Após o período soviético (oficialmente ateu) ressurgiu a Igreja Ortodoxa Russa. Vladimir Putin e os ideólogos do putinismo integraram a religião no corpo da ideologia do regime.
A Ideologia
O regime russo sustenta-se mais ou menos declaradamente na Ideologia Euroasiática. Dizemos mais ou menos, porque ao mesmo tempo que ela é defendida por muitos personagens importantes do regime, este não se define de nenhuma ideologia, exceto talvez o nacionalismo. Porém, reclama-se do tradicionalismo o que neste caso significa religião ortodoxa.
A Ideologia Euroasiática é tão importante de tantas formas e em tantos campos tão decisiva na postura estratégica da Federação Russa que trataremos o tema em artigo próprio a ela exclusivamente dedicada.
O Euroasianismo surge como ideologia distinta entre as elites intelectuais em Moscovo e S. Petersburgo. Eclipsada durante o período soviético é recuperada por intelectuais como Alexander Dugin, agora sob o epiteto de neo-euroasianismo. Em termos gerais define-se pela consideração que a Rússia sendo parcialmente Europeia e parcialmente asiática tem uma missão específica no mundo. Proclama a necessidade de unir todos os povos eslavos, destruir a democracia liberal, proclama a tradição em oposição ao modernismo e à “dissolução moral do ocidente.
Sem receio de errar, podemos concluir pela capacidade da cultura russa se expandir fora do limite da Federação e do facto de o regime estar e as suas ações serem facilmente legitimados pela existência de uma ideologia de pendor imperialista, bem caracterizada e insuscetível de se confundir com qualquer outra.
Respondendo à questão inicial-: Será a Rússia um Império? Sim. A Federação Russa é um império moderno. Verifica-se que cumpre pelo menos 9 das 10 condições que à partida listámos como de verificação necessária para merecer a designação de império.
Não será um império ultramarino baseado no poder naval, mas um império continental. Veremos, quando no próximo artigo, tratarmos questão ideológica, como uma das linhas de força dessa ideologia é a oposição entre mar e terra. ou se quisermos, entre os impérios baseados no poder naval e os impérios baseados no poder continental.




Mas, império ou não império, como se aceitar a existência de uma entidade política que gera no seu seio gente que encoraja que se diga em o público, numa televisão financiada pelo Estado, enormidades como a que as seguir se transcrevem? Este é o tipo de afirmação que seria de esperar de um fanático do século XIV, mentalmente formatado pela Santa Inquisição ou por um contemporâneo seguidor do Estado Islâmico. Mas nunca emanando de um país e do seio de um povo a quem a humanidade deve tanto.
"[As crianças ucranianas] deveriam ter sido afogadas no rio Tysyna, mesmo ali, onde o patinho nada. Afoguem essas crianças, afoguem-nas mesmo no Tysyna... Quem disser que a Rússia as ocupou, atirem-nas ao rio com uma forte corrente... enfiem-nas diretamente nessas cabanas e queimem-nas... [A Ucrânia] não deveria sequer existir,"
Anton Krasovsky, ex-diretor de depósitos da RT, financiado pelo Estado russo.
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