O termo “capitalismo de vigilância” foi introduzido pela socióloga Shoshana Zuboff, no seu livro The Age of Surveillance Capitalism, para descrever um novo sistema económico que emergiu no final do século XX e se consolidou no início do século XXI. Este modelo é caracterizado pela apropriação massiva de dados pessoais através de plataformas digitais, que, sem consentimento explícito ou pleno conhecimento dos utilizadores, os transformam em mercadoria. As empresas tecnológicas, como Google, Facebook - Meta, Amazon e outras, desempenham um papel central neste ecossistema, coletando, analisando e comercializando dados de utilizadores para maximizar lucros através da manipulação do comportamento humano.

A Origem do Capitalismo de Vigilância

O capitalismo de vigilância tem as suas raízes na revolução tecnológica e digital que se iniciou nos anos 90, quando a internet começou a ganhar preponderância na vida quotidiana. A Google foi pioneira no desenvolvimento de um modelo de negócios baseado na extração de dados, ao perceber que o comportamento online dos utilizadores poderia ser analisado e transformado em previsões valiosas para a publicidade direcionada. Esse modelo rapidamente tornou-se o padrão entre as empresas tecnológicas, dando origem a uma economia digital baseada na vigilância constante das atividades dos utilizadores.

O mais impressionante deste capitalismo é que transcende o sistema político vigente nos diferentes países, federações, uniões ou blocos políticos. Embora seja verdade que esta tendência/movimento/tecnologia tenha nascido nos Estados Unidos, rapidamente se expandiu pelo Ocidente alargado (EUA, UE, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Chile, Brasil entre outros). No entanto, atualmente, a China destaca-se como um dos principais protagonistas, com empresas que praticam, e por vezes até superam, as práticas do capitalismo de vigilância. Esta tecnologia e o modelo capitalista que promove foram amplamente adotados por todos. Alguns dirão que não admira ser a China um dos principais atores, pois alia uma ditadura feroz a um capitalismo desenfreado e sem regras. Nós não diríamos tanto. A análise do que é a China hoje, é muito complexa, e não é objeto do presente texto.

Este sistema não só recolhe informações pessoais, como também rastreia padrões de comportamento, interesses, localizações, comunicações e até emoções. Em troca de serviços aparentemente gratuitos, como motores de busca, redes sociais ou serviços de streaming, os utilizadores pagam com os seus dados, muitas vezes sem ter uma noção clara da quantidade e profundidade da informação que é recolhida. A promessa de conveniência e personalização oferecida por estas plataformas esconde uma realidade mais inquietante: a criação de perfis digitais detalhados, que são depois vendidos para empresas que os utilizam para direcionar publicidade e influenciar decisões de compra, comportamento e até preferências políticas.

A Mercantilização dos Dados Pessoais

O princípio base do capitalismo de vigilância é a mercantilização dos dados pessoais. As grandes empresas tecnológicas não se limitam a fornecer serviços aos utilizadores; elas transformam a sua atenção e as suas interações online num produto que pode ser vendido a terceiros. Estas interações podem incluir qualquer coisa, desde uma simples pesquisa no Google até uma publicação nas redes sociais, passando por padrões de compra online, localização geográfica ou até mesmo dados biométricos. Cada uma destas ações deixa um rasto de informações que é armazenado e utilizado para criar perfis detalhados dos utilizadores.

Com estes dados, as empresas podem prever não só o que o utilizador quer comprar, mas também influenciar o que ele pode desejar no futuro. Através de complexos algoritmos de inteligência artificial, os dados são analisados e refinados para maximizar a eficácia das campanhas de marketing. O resultado é um sistema que não apenas reflete o comportamento dos utilizadores, mas também o molda, criando um ciclo vicioso onde os desejos e escolhas dos indivíduos são influenciados por sugestões personalizadas, determinadas por dados recolhidos anteriormente.

A Perda de Privacidade

Uma das principais questões que surge com o capitalismo de vigilância é a erosão da privacidade. Ao utilizar serviços gratuitos online, os utilizadores muitas vezes concordam com termos e condições que permitem a recolha de dados, mas a complexidade e o volume de informações envolvidas tornam quase impossível para a maioria das pessoas compreenderem plenamente o que está a ser recolhido e como será utilizado. Além disso, os dados não são apenas usados para fins publicitários; podem também ser partilhados com terceiros, como agências governamentais ou empresas de análise de dados.

A vigilância maciça e contínua levanta questões éticas significativas. Os indivíduos perdem o controlo sobre as suas próprias informações, o que significa que empresas e governos podem aceder a dados sensíveis sem o consentimento explícito dos utilizadores. Esta perda de privacidade pode ter consequências profundas, como o aumento da vigilância estatal, a repressão de dissidentes políticos e a discriminação algorítmica.

O "Mercado de Comportamentos Futuros"

Vivemos numa era em que a tecnologia domina quase todos os aspetos da nossa vida. O que muitos de nós não percebemos, no entanto, é que aquilo que consideramos como um benefício — estar permanentemente conectados e ter acesso a serviços personalizados — esconde uma realidade muito mais sinistra: o capitalismo de vigilância.

O capitalismo de vigilância começou com empresas tecnológicas que, aparentemente, forneciam serviços "gratuitos" em troca de informação sobre os seus utilizadores. A Google foi pioneira nesse modelo, criando uma economia baseada na coleta massiva de dados. Esses dados não só permitem entender como as pessoas navegam na internet, mas também prever as suas ações e comportamentos. O objetivo? Vender essas previsões a anunciantes e outras entidades, criando um mercado de comportamentos futuros. É para todos os efeitos um mercado de futuros, como qualquer outros de commodities. A diferença é que o seu valor é muito maior, pois tem impacto direto mas decisões políticas e no modo como vivemos.

Outras gigantes tecnológicas, seguiram o mesmo caminho. Cada clique, like, ou pesquisa que fazemos alimenta um sistema que sabe mais sobre nós do que nós próprios. A personalização de anúncios, recomendações e serviços são apenas uma fachada para um processo muito mais intrusivo: a modificação do nosso comportamento com fins comerciais.

A Modificação do Comportamento em Massa

O poder destas empresas vai muito além da simples coleta de dados. O capitalismo de vigilância não se limita a observar o que fazemos; ele molda o que fazemos. Através de algoritmos complexos e a análise contínua das nossas interações, estas empresas conseguem influenciar as nossas escolhas de uma forma impercetível. Exemplo disso é o Pokémon Go, um jogo desenvolvido com o objetivo de atrair utilizadores a lojas e restaurantes que pagavam para fazer parte desta "jogada" de marketing disfarçada. O jogo tornou-se num instrumento de lucro, manipulando o comportamento das pessoas para maximizar o rendimento.

O mesmo acontece em outras redes sociais, onde as nossas emoções são deliberadamente manipuladas para aumentar o tempo de interação, maximizando os lucros através da venda de anúncios direcionados. Através destas técnicas, o capitalismo de vigilância transforma as nossas vidas num ciclo interminável de consumo e manipulação, sem que tenhamos plena consciência disso.

A Ilusão do Livre Arbítrio

O capitalismo de vigilância também desafia a noção de livre arbítrio. Quando as empresas tecnológicas utilizam algoritmos sofisticados para prever e influenciar comportamentos, os utilizadores são, em certa medida, manipulados para tomar decisões que beneficiam essas mesmas empresas. Isto pode parecer inócuo quando se trata de publicidade de produtos, mas as implicações tornam-se mais graves quando esses mesmos algoritmos são usados para influenciar decisões políticas ou sociais.

Nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e no referendo do Brexit, por exemplo, os dados de utilizadores foram explorados de maneira massiva para influenciar eleitores através de campanhas direcionadas. As empresas de consultoria política, como a Cambridge Analytica, utilizaram dados pessoais de milhões de utilizadores do Facebook para criar campanhas específicas com o objetivo de manipular as suas opiniões políticas. Este tipo de manipulação não só compromete a integridade dos processos democráticos, como também levanta preocupações sobre o impacto da vigilância na autonomia individual.

As Consequências para a Democracia e a Liberdade

Um dos aspetos mais preocupantes do capitalismo de vigilância é o seu impacto na democracia. A concentração de poder em algumas grandes empresas tecnológicas que controlam os dados de bilhões de pessoas cria um desequilíbrio perigoso. Estas empresas têm a capacidade de moldar não só as nossas escolhas de consumo, mas também as nossas decisões políticas. Escândalos como o da Cambridge Analytica, em que dados de milhões de utilizadores do Facebook foram utilizados para influenciar eleições, são apenas o começo de uma nova era em que o controlo da informação digital pode subverter a própria essência da democracia.

Além disso, o capitalismo de vigilância desafia a nossa autonomia como indivíduos. Ao transformar a vida quotidiana numa fonte constante de dados, este sistema elimina a nossa capacidade de manter privacidade ou mesmo de agir livremente. Cada movimento, cada decisão e até mesmo as nossas emoções mais íntimas são monitorizadas, analisadas e utilizadas para fins que muitas vezes desconhecemos.

O Futuro da Economia de Vigilância

O capitalismo de vigilância continua a expandir-se e a evoluir à medida que a tecnologia avança. O advento da Internet das Coisas (IoT) e a proliferação de dispositivos inteligentes, como assistentes de voz e câmaras de segurança conectadas, ampliam ainda mais as possibilidades de recolha de dados. A inteligência artificial, o reconhecimento facial e outras tecnologias emergentes também estão a ser utilizadas para monitorizar e analisar o comportamento humano de forma cada vez mais sofisticada.

À medida que as empresas tecnológicas procuram novas maneiras de capitalizar sobre a vigilância, os utilizadores enfrentam o desafio de equilibrar a conveniência oferecida por estes serviços com a crescente intrusão nas suas vidas privadas. Isto levanta questões sobre o futuro da regulação de dados e a necessidade de um maior escrutínio sobre as práticas das grandes empresas tecnológicas.

Regulação e Proteção de Dados: Uma Necessidade Urgente

A proteção de dados tem sido uma preocupação crescente em várias partes do mundo. Na União Europeia, o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), implementado em 2018, é uma tentativa de dar aos cidadãos mais controlo sobre os seus dados pessoais, obrigando as empresas a serem mais transparentes sobre como os dados são recolhidos e utilizados. No entanto, o RGPD, embora seja um passo importante, ainda enfrenta dificuldades na implementação e fiscalização, especialmente quando se trata de empresas multinacionais com vastos recursos.

Nos Estados Unidos, a regulação de dados é mais fragmentada e menos robusta, o que permite às empresas tecnológicas uma maior liberdade de ação. Contudo, à medida que o público se torna mais consciente dos perigos da vigilância, a pressão por uma regulamentação mais eficaz está a crescer.

Conclusão: O Preço da Nossa Liberdade

O capitalismo de vigilância é um fenómeno que redefine a relação entre consumidores e empresas na era digital. Através da recolha e comercialização de dados pessoais, este modelo económico cria uma dinâmica onde o comportamento humano se torna um recurso valioso a ser explorado. A mercantilização da privacidade e a manipulação do comportamento levantam questões éticas profundas sobre autonomia, democracia e o futuro das sociedades livres.

A era digital trouxe inúmeros benefícios, desde a conectividade global até à conveniência dos serviços online. No entanto, o preço desta conectividade tem sido uma perda crescente de controlo sobre a privacidade individual. O futuro do capitalismo de vigilância depende, em grande medida, da capacidade das sociedades de equilibrarem a inovação tecnológica com a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

O capitalismo de vigilância não é apenas uma evolução do capitalismo tradicional — é uma mutação perigosa que ameaça os alicerces da nossa sociedade. Ao permitir que grandes empresas tecnológicas controlem as nossas informações, estamos a abrir mão de algo muito mais valioso do que os nossos dados: estamos a ceder a nossa liberdade, a nossa privacidade e o nosso direito à autodeterminação.

As consequências de ignorarmos esta realidade são catastróficas. Se não agirmos, corremos o risco de viver num mundo onde o ser humano se torna um peão numa economia de dados, manipulado para gerar lucros para uns poucos, enquanto a sua individualidade e autonomia se diluem cada vez mais. A pergunta que devemos fazer não é apenas como regulamos estas práticas, mas se estamos dispostos a sacrificar a nossa humanidade em nome da conveniência digital.

O capitalismo de vigilância representa o ápice de um modelo económico que coloca o lucro acima de tudo, incluindo os nossos direitos mais básicos. A nossa tarefa, enquanto sociedade, é resistir a essa erosão da nossa liberdade antes que seja tarde demais.

Capitalismo de Vigilância

A Era da Extração de Dados
e da
Comercialização da Privacidade

por Simon Ben-David

Este é o segundo texto de uma trilogia sobre a economia digital e suas consequências.
Leia os três textos para ficar com uma visão completa sobre o tema.

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A utopia de controlar os perigos da internet